Cláudio Pereira Cláudio Pereira
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Taxa fixa vs Euribor variável no crédito habitação

Este artigo nasceu de uma conversa com um conhecido meu que está a pensar comprar casa e confessou que não sabia para que servia a Euribor, nem sabia que havia taxas fixas ou variáveis. Sabia apenas que teria de pagar as prestações.

E isso é perigoso.

Comprar casa é uma decisão séria. Provavelmente a mais pesada financeiramente que alguém faz na vida. Não é um contrato qualquer, é um compromisso de décadas. E perceber como funcionam os juros não é detalhe técnico, é parte essencial da decisão.

“O preço é o que pagas. O valor é o que recebes.” — Warren Buffett

O que é a Euribor e porque importa tanto

A Euribor é a taxa à qual os bancos emprestam dinheiro entre si. Nos créditos habitação com taxa variável, a tua prestação resulta da soma da Euribor com o spread do banco. Isto significa que a prestação não é fixa: muda ao longo do tempo.

Historicamente, a Euribor já esteve muito alta e muito baixa. No início dos anos 2000 e em 2008, chegou a passar dos 5%. Entre 2019 e 2021 esteve negativa, perto de -0,5%. Estas diferenças não são pequenas: transformam completamente o valor da prestação (muito mesmo).

Quando a Euribor desce, muita gente beneficia. Paga menos, sobra mais dinheiro ao fim do mês. Quando sobe, acontece o inverso — e foi aí que muitos sentiram o impacto a sério.

Quando a prestação sobe, a matemática não perdoa

Houve períodos em que milhares de famílias viram a prestação aumentar centenas de euros de um ano para o outro. Algumas conseguiram ajustar-se. Outras tiveram de renegociar, vender a casa ou, em casos mais duros, perder o imóvel.

Ao mesmo tempo, é justo dizer o contrário: quem apanhou a Euribor em queda durante anos beneficiou bastante. Pagou menos juros, teve prestações muito mais baixas e conseguiu respirar financeiramente, e talvez até poupar para abatimentos.

A taxa variável não é boa nem má por si. Depende do contexto e, sobretudo, da margem financeira de quem a escolhe.

Taxa variável: flexível, mas exige margem

A taxa variável tende a ser interessante quando a Euribor está alta mas com probabilidade de descer, ou quando está estável e tens margem para absorver subidas. É uma opção que pode compensar a longo prazo, mas só para quem consegue aguentar oscilações sem perder qualidade de vida.

Se uma subida da Euribor te tira o sono, então talvez o risco seja demasiado alto para ti.

Taxa fixa: pagar mais por tranquilidade

A taxa fixa elimina a incerteza. A prestação é sempre a mesma, independentemente do que aconteça à Euribor. Isso tem um custo: normalmente começa mais alta do que a variável.

Mas atenção: quando as taxas já estão relativamente altas, por exemplo 3% ou 4%, muitas vezes não se justifica a taxa fixa. Se tens margem para absorver pequenas subidas, historicamente há uma boa probabilidade de a Euribor descer com o tempo, o que poderia reduzir a prestação.

A taxa fixa não é uma “aposta”. É um seguro. E como todo seguro, vale a pena quando o risco que queres proteger é real e não facilmente absorvível.

A minha visão sobre comprar casa

Na minha opinião, comprar casa deve ser feito com os pés bem assentes no chão. Uma casa só faz sentido se não te roubar qualidade de vida. Se a prestação te impede de viver, poupar ou lidar com imprevistos, então o problema não é a taxa — é a decisão.

Ferramentas como o FINE ajudam a perceber os valores máximos que podes vir a pagar em cenários negativos. O mesmo acontece com simuladores como o nosso Taxa Fixa vs Euribor Variável, que mostram o impacto real das subidas e descidas dos juros ao longo do tempo.

Ignorar estes cenários é fechar os olhos ao risco.

A pergunta certa não é qual é mais barata

A pergunta certa é:
 “Consigo viver bem se isto correr mal?”

Se a resposta for sim, tens margem.
Se for não, estás a depender da sorte.

E num crédito habitação, a sorte não é estratégia.

A taxa fixa ou variável não é uma escolha universal. É uma escolha pessoal, informada e consciente. O erro não está em escolher uma ou outra. O erro está em assinar sem perceber.